Publicado em 14 abr 2020

Baixa visibilidade sobre a TI pode emperrar a transformação digital

Redação

Se o sucesso de uma empresa está fundamentado no que vem sendo chamado de transformação digital, algumas considerações sobre o tema são necessárias, uma vez que o digital é relevante para o sucesso, mas muitas pedras se colocam no caminho sem que o gestor de TI consiga identificar.

Marco Catunda - 

Para as empresas que entram agora no mercado, as chamadas startups, a jornada da transformação digital tem sido menos dolorosa porque começam sem os muitos entraves enfrentados pelas empresas tradicionais, com suas redes corporativas complexas e muitas vezes altamente burocráticas e engessadas, reunindo uma enorme quantidade de sistemas e aplicações complexas e sem conectividade entre si. Para as empresas estabelecidas há algum tempo, virar a chave para o digital pode ser uma tarefa muito difícil e sem os resultados esperados.

Devemos entender que a startup não é apenas uma empresa de tecnologia, mas é qualquer empresa que começa agora, em qualquer setor da atividade econômica. Se o sucesso de uma empresa está fundamentado no que vem sendo chamado de transformação digital, algumas considerações sobre o tema são necessárias, uma vez que o digital é relevante para o sucesso, mas muitas pedras se colocam no caminho sem que o gestor de TI consiga identificar.

Por definição, a transformação digital é o uso da tecnologia digital para a execução dos processos cotidianos com maior eficiência e ela vem acontecendo desde há alguns 40 anos, com o surgimento dos birôs de serviços (escritórios de informática) que realizavam serviços digitais de alguns serviços, como contabilidade, folha de pagamento, contas a pagar e receber, entre outros. Poucos anos depois vieram os primeiros microcomputadores (PC), os quais abriram mercado para os primeiros sistemas computacionais dedicados à digitalização das mesmas rotinas realizadas pelos birôs, mas, agora também dentro da própria empresa.

A transformação digital vai além dos uso de sistemas de computador para tarefas específicas, ela, na verdade, é definida por uma mudança abrangente nos processos gerenciais, eliminando as tarefas manuais para elevar a eficiência empresarial, a melhoria dos produtos e serviços, incluindo a gestão de pessoas e aumento da lucratividade. Ela deve ser vista como um objetivo a ser alcançado justamente porque o uso das tecnologias de maneira correta, planejada e altamente gerenciada pode garantir a eficiência dos negócios.

Gigantes, como o Walmart (a maior rede varejista do mundo), estão pensando para sobreviver à concorrência imposta pela Amazon, que começou a fazer experiências no mundo offline a partir da compra da rede de varejo Whole Foods. Não dá para apostar todas as fichas nos resultados, mas podemos acompanhar essa briga e aprender muito com isso.

Temos visto muitos especialistas apontando caminhos -- relevantes, aliás - para que as empresas consigam colocar em prática a sua transformação digital. Um dos principais pontos abordados por eles é a necessidade de mudança de cultura. O problema é que a cultura de uma empresa pode estar impregnada pelo o que o dono da empresa acredita ser o correto. Afinal, foi ele quem fez a empresa chegar aqui.

Sim, mas as coisas estão mudando e a competição acirrada está levando - mesmo que a fórceps - este dono do negócio a buscar melhores soluções tecnológicas e profissionais capacitados para este desafio. O que temos percebido também é que, por mais que a empresa possa digital, ela necessita de uma gerência qualificada, tanto do ponto de vista profissional, como tecnológica. Na maioria dos casos, um aumento da eficiência começa por coisas simples de se fazer.

Mesmo com boa vontade e querendo mudar, a empresa pode estar presa em métodos e tecnologias ultrapassadas, sem saber como identificar um problema. Certa vez, o gestor de TI de uma empresa de publicidade estava há meses com alto consumo do tráfego de dados na rede e estava com dificuldade para descobrir o motivo.

Ao usar uma ferramenta de análise de tráfego descobriu que a equipe de design usava uma aplicação de mensagens via chat para enviar arquivos com as artes para os clientes. Isso acontecia regularmente ao longo do dia. A saída foi entender a mudança cultural da empresa e aceitar o procedimento de troca de mensagens utilizado, ao invés de fazer o bloqueio deste tipo de comunicação com o cliente.

Outro caso foi com um restaurante interno de uma grande empresa que toda manhã, às 10 horas, mandava o cardápio do dia para os funcionários por e-mail. Era um arquivo grande em PDF cheio de imagens enormes. O responsável de TI ficava maluco com isso. A solução foi criar um site com um menu e mandar o link, ao invés do arquivo.

Em ambos os casos, uma resposta simples resolveu o problema. Isso foi possível porque os gerentes de TI conseguiram identificar onde estava a deficiência. Como resultado, o uso de uma ferramenta especializada na identificação do tráfego permitiu aos gestores de TI comprovar a necessidade de novas alternativas e investimentos para que a empresa possa trabalhar mantendo a mesma relação de qualidade com seus clientes.

Acredito que a transformação digital não seja um processo que se encerra em si. Ela não começa em um dia e tem prazo para terminar e nem depende de decreto presidencial ou de medidas de cima para baixo sem que se considere os reais fatores que a permitam acontecer. As tecnologias acompanham a evolução dos processos de produção e da sociedade, em um processo de mudança permanente, envolvendo toda a organização, desde a alta gerência e as equipes de todas as áreas, com muita experimentação, erros e acertos.

Para começar uma transformação digital para valer é necessário o conhecimento do que a empresa possui dentro casa, ou seja, mapear seus sistemas e dispositivos e saber exatamente do que eles são capazes. É comum a gente encontrar empresas que usam apenas 10% do que um sistema é capaz de oferecer. Neste caso, capacitar as equipes para explorarem melhor todas as capacidades dos sistemas pode ajudar acelerar a informatização de processos ainda realizados manualmente.

É comum, também, encontrar empresas que não sabem exatamente do que são capazes, não sabem o que realmente possuem no seu ambiente de TI, quais sistemas existem e como ocorre o consumo de banda de cada um deles, e no todo. O que faz a rede se tornar lenta e provocar a baixa resposta das aplicações, em geral, pode vir do mau dimensionamento dos recursos devido à falta de uma visão sobre o ambiente tecnológico. Ter uma internet rápida nem sempre é a resposta para o problema.

Para que o gestor de TI possa ter a visão sobre o seu ambiente tecnológico, um inventário é mais do urgente a ser feito. Um assessment global permitirá conhecer as ferramentas e seus recursos.

De nada adianta possuir um conjunto de sistemas eficientes, seguros e confiáveis se eles esbarram na baixa capacidade de funcionamento da rede corporativa. Este é um ponto crucial para a transformação digital. Depois de mapeado os recursos (sistemas e dispositivos), é necessário saber se estão sendo oferecidas as melhores condições para que estes recursos funcionam na velocidade e eficiência desejada. De que adianta ter um carro de F1 se onde ele vai passar é uma rua de terra toda esburacada? Se o seu desempenho depende dessa estrada, uma TI de alto desempenho depende de uma boa rede de dados, com alta disponibilidade e veloz.

Ok, agora que conseguiu o melhor carro e a melhor estrada, qual o nível de visibilidade que você tem sobre esta jornada? Quando o usuário faz um chamado para um incidente, muito provavelmente ele não conseguiu resolver sozinho porque ele não pode ver onde o problema está.

Se pudesse, ele teria dado um clique e tudo bem. Mas, o suporte também precisar ter uma visão 360 graus sobre a infraestrutura de TI, com a resposta para quaisquer tipos de problemas nas mãos. No caso do tráfego da rede é a mesma coisa: sem saber quais aplicações estão comendo banda da rede, o suporte não terá como atender à solicitação do usuário.

O gargalo pode não estar na aplicação em si, mas no tráfego lento de dados. Boa parte dos incidentes está relacionada ao elevado consumo de recursos de rede e não nas aplicações empresariais. Que fazer? Para se ter um mapa abrangente do que está sendo consumido, o melhor é usar uma solução tecnológica especialmente desenhada para isso e que permita coletar informações precisas e inteligentes sobre o consumo das aplicações e dispositivos de rede.

Tenho comentado com vários gestores de TI -- principalmente quando o assunto é a transformação digital -- que muitas dicas oferecidas pelos especialistas não podem estar desatreladas da necessidade de se ter uma visão 360 graus dos processos e recursos disponíveis. Atingir esta visão deve ser uma rotina para que possa garantir melhorar o tráfego de dados e a respostas das aplicações.

A tomada de decisão dos gestores de TI e administradores de rede é facilitada quando podem ter toda a visibilidade necessária. Assim, eles podem promover as correções necessárias, desde o dimensionamento adequado dos recursos, isolando as causas, reforçando a segurança e garantindo a satisfação dos usuários.

Marco Catunda é CTO da Telcomanager, mestre em ciências da computação pela PUC-Rio e engenheiro de telecomunicações pela UFF - agencia@fontemidia.com.br

Artigo atualizado em 15/04/2020 02:00.

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